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Broca-da-cana: você pode estar dormindo com o inimigo!

A despreocupação com o canavial que espera a colheita ou com a cana-bisada pode comprometer o sucesso do controle da broca-da-cana.
A broca-da-cana, Diatraea saccharalis, é uma das pragas mais importantes da cana-de-açúcar, podendo causar, segundo o CTC, perdas de 0,42% em açúcar, 0,21% em álcool e 1,14% no peso da cana colhida a cada 1% de índice de intensidade de infestação (III) [100 x (número de entrenós broqueados / número total de entrenós)].

Mas de onde vem essa mariposa? A mariposa vem de áreas vizinhas ou bem distantes, de matas e de talhões infestados. Mas poucas vezes paramos para refletir que aquele talhão que espera a colheita, e que não é mais monitorado pela equipe de pragas, é um grande multiplicador da broca-da-cana. Nesse mesmo grupo está a pior: a cana-bisada.

O levantamento de brocas pequenas e grandes, quando realizado pela equipe da Usina ou pelo agricultor, é feito dos 3-4 meses do plantio ou corte até 8-10 meses, quando não é mais possível entrar no canavial. Esse canavial ficará pelo menos mais 4 meses esperando a colheita. Isso se essa cana não “bisar”, ou seja, se não passar dois verões no campo sem colher.

Pensemos na situação menos grave, onde o canavial não será monitorado por 4 meses à espera da colheita. A broca-da-cana completa seu ciclo de vida (de ovo a adulto), no campo, em cerca de 60 dias. Isso significa que num talhão que aguarda a colheita poderão ocorrer duas gerações da broca danificando os internódios (gomos) que foram formados nesses 4 meses.

Quando o talhão atinge 8-10 meses, cerca de 10 internódios estão formados. Quando o canavial é colhido, cerca de 20 internódios já existem, valor esse diferente entre as variedades. Isso significa que metade dos internódios, formados no período de espera da colheita, estarão sujeitos às novas infestações que poderão ocorrer no canavial não monitorado.

Vamos imaginar uma situação bem moderada de infestação da broca-da-cana nesse período de espera da colheita:

Situação do canavial até 8-10 meses: sem infestação da broca-da-cana

(uma lagarta pequena broqueia 1 internódio e uma lagarta grande infesta cerca de 2 internódios. Uma lagarta a cada 2 metros lineares corresponde a uma infestação de 3.000 brocas por hectare)

Situação do canavial até 12-14 meses: 100.000 colmos e 2.000.000 de internódios

(metade sem infestação, pois foi monitorada, e a outra metade foi infestada na espera pela colheita)

Número de gerações da broca dos 8-10 aos 12-14 meses: 2

(vamos imaginar que uma geração deu 1.500 e a outra 3.000 brocas pequenas e a mesma quantidade de brocas grandes por hectare, infestações consideradas baixa e média, respectivamente)

Infestação na colheita: serão 4.000 internódios broqueados com brocas pequenas e 9.000 com lagartas grandes. Isso dará 0,45% de III só nesse período até a colheita.

Se essa infestação adicional pode ocorrer em um canavial não monitorado que espera a colheita, tentemos imaginar o que poderia acontecer numa área de cana-bisada, que ficará parada por muito mais tempo. A situação é alarmante!

Para um canavial bem monitorado e com a broca-da-cana bem controlada, ao avaliarmos a cana que é colhida nessas áreas, encontraremos mais internódios broqueados na parte superior do colmo do que na parte inferior, indicando o problema discutido.

Portanto, o canavial não monitorado que espera a colheita e a cana-bisada são fontes contínuas de infestação das áreas adjacentes em uma fazenda e são os principais fatores de aumento do índice de intensidade de infestação em canaviais bem cuidados.

Existe uma forma de monitorar e de controlar a broca-da-cana em canaviais que esperam a colheita ou em cana-bisada. O monitoramento pode ser feito no “ponto zero”, ou seja, nas plantas ao redor do talhão, desde que a área tenha sido monitorada dos 3-4 até os 8 meses de desenvolvimento e que não tivesse infestação acima de 1.000 lagartas grandes por hectare. Lembrando que as infestações, na maioria das vezes, começam de fora para dentro, monitorar o “ponto zero” nos indicaria o momento exato do controle nesse local, impedindo que a infestação se espalhe.

Detectando aumento populacional da praga no “ponto zero” ou em áreas já infestadas aos 8 meses após o plantio ou colheita, deve-se adotar alguma medida de controle.

Se a área terminou o período de monitoramento com infestação superior a 1.000 brocas grandes por hectare, não será mais possível realizar esse monitoramento do “ponto zero” até à colheita e o controle só poderá ser realizado em área total, com aviões ou drones (quando estiverem autorizados para uso).

O controle químico, nesses casos, geralmente não é a melhor opção. Em área total não conseguiria atingir todas as lagartas no interior do canavial e nas bordaduras faria apenas o controle parcial nessa região. Se a infestação no “ponto zero” é inicial, o controle químico poderá ter algum efeito sobre as lagartas fora do colmo, mas um atomizador seria mais adequado para sua aplicação, pois espalharia o produto por pelo menos 20 metros dentro do canavial.

O mais adequado para o manejo da broca-da-cana em canaviais que esperam a colheita ou de cana-bisada é o controle biológico. Nesse caso, as vespinhas Cotesia flavipes e Trichogramma galloi e o fungo Beauveria bassiana seriam os produtos biológicos indicados.

Se Trichogramma for o parasitoide escolhido, o monitoramento do “ponto zero” pode ser feito com armadilhas de feromônio com fêmeas virgens. Sempre que durante duas semanas seguidas mais do que 10 machos forem capturados semanalmente nas armadilhas, deve-se proceder à liberação do parasitoide. Essa liberação pode ser feita com avião ou drone, apenas nos carreadores, liberando-se cerca de 5.000 pupas do parasitoide em cada 1.000 metros lineares. Se for realizada manualmente, a pé ou em motos/quadriciclos, deve-se colocar por entre as folhas das plantas (até 2 metros para dentro do talhão) uma cartela contendo 2.000 vespinhas a cada 20 metros apenas ao redor do talhão.

Com o avanço das pesquisas, o monitoramento com armadilhas deverá ter as fêmeas virgens de Diatraea substituídas por pastilhas com feromônio sintético e a quantidade liberada do parasitoide, quando melhor estudada, deverá diminuir.

Se a liberação for de Cotesia, o monitoramento deverá ser feito em pelo menos 10 “pontos-zero”, onde cada duas linhas paralelas, de um metro cada, bem próximas ao carreador, serão avaliadas contando-se o número de lagartas pequenas e grandes. Assim que mais do que 1.500 lagartas forem encontradas por hectare, deverá proceder à liberação. Nesse caso, um copinho contendo 750 parasitoides deverá ser aberto a cada 40 metros ao redor do talhão, em até 2 metros dentro do canavial.

Nova tecnologia de aplicação está sendo desenvolvida, onde as massas tratadas com repelentes de predadores poderão ser espalhadas pelos carreadores com motos/quadriciclos, aviões ou drones.

Por fim, se o fungo Beauveria for o escolhido, o mesmo deve ser aplicado na dose de 5×1012 conídios viáveis por hectare com um atomizador, para que o bioproduto seja bem espalhado por entre as plantas próximas ao carreador. Como o canavial estará bem fechado, não será necessário esperar o final da tarde para aplicar o produto, mas dias mais úmidos seriam importantes para o uso desse fungo. Num futuro não muito distante, os drones farão essa pulverização.

A vantagem de Cotesia e de Trichogramma em relação ao inseticida e até em relação ao fungo é que esses parasitoides dentro de 10 dias darão origem aos seus descendentes que continuarão a parasitar novos hospedeiros (lagartas ou ovos da broca-da-cana) até a colheita do canavial. Portanto, esses devem ser preferidos, pois são mais funcionais na situação destacada.

A associação dos agentes de controle biológico tem a vantagem de acelerar o controle da broca-da-cana e diminuir erros que possam ser cometidos pelo aplicador em campo.

Se os canaviais que esperam a colheita ou aqueles “bisados” não forem monitorados e a broca-da-cana não for controlada biologicamente, continuaremos amargando danos altos e dificilmente diminuiremos nossas infestação à níveis inferiores a 1% de III.


Alexandre de Sene Pinto



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