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Avança o manejo biológico do gorgulho-da-cana

O Brasil é referência mundial no manejo biológico de pragas da parte aérea da cana-de-açúcar e começa a utilizar fungos e nematoides benéficos para o controle das pragas de solo, como o gorgulho-da-cana.

O gorgulho-da-cana ou bicudo-da-cana, Sphenophorus levis, é uma das principais pragas regionais da cana-de-açúcar. Foi constatado pela primeira vez no Brasil na década de 1970 e hoje causa prejuízos em cana-de-açúcar em 53 municípios do Estado de São Paulo, além de regiões dos Estados do Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina. Esse aumento na distribuição da praga se deve principalmente ao descuido no transporte de mudas infestadas de uma região para outra, pois o inseto tem uma baixa taxa de dispersão (até 300 m em toda sua vida).

Os danos na cultura são causados pelas larvas que se alimentam na base das plantas, devido à construção de galerias à medida que se desenvolvem, causando a morte das touceiras. Em alguns locais do Estado de São Paulo chegam a atingir 50 a 60% de perfilhos, ocasionando perdas de 20 a 30 toneladas de cana-de-açúcar por hectare.

As larvas do gorgulho-da-cana podem ser confundidas com outros insetos, especialmente com as do gorgulho-rajado, Metamasius hemipterus, que não tem importância econômica para a cultura.

O gorgulho-da-cana tem preferência por solos claros, argilosos e com boa umidade. Parece que a aplicação excessiva de vinhaça aumenta a ocorrência dessa praga, tal como acontece com a broca-da-cana, Diatraea saccharalis. O clima influencia na população do gorgulho, sendo que em todas as fases eles são mais ativos durante os meses quentes e úmidos e diminuem a sua atividade nos meses frios e secos.

Ocorrem dois picos da praga durante o ano. Os picos de larvas ocorrem entre os meses de maio e julho e entre novembro e dezembro. Os picos de adultos ocorrem entre os meses outubro e novembro e entre fevereiro e março, sendo esse último o maior deles.

O ciclo do gorgulho-da-cana pode variar entre 58 e 307 dias, com média de 173,3 dias (27ºC). Os adultos quase sempre são encontrados abaixo do nível do solo, têm hábito noturno, são pouco ágeis e quando se sentem ameaçados fingem de mortos. As fêmeas põem os seus ovos na base das brotações, podendo ser abaixo ou ao nível do solo.

O método de controle mais utilizado no manejo de S. levis é a destruição mecânica das soqueiras no período de plantio (momento da reforma do canavial), procurando-se expor ao máximo as larvas aos seus predadores e ao secamento dos rizomas.

Existem alguns inseticidas registrados para o controle do gorgulho-da-cana, sendo eles lambdacialotrina + tiametoxam, imidacloprido, alfacipermetrina + fipronil e bifentrina + carbosulfano. Assim como na destruição das soqueiras, esta técnica é utilizada no plantio, procurando-se evitar o ataque da praga na cana-planta.

Todos os inseticidas registrados para o gorgulho são bastante tóxicos e pouco seletivos para inimigos naturais, especialmente para formigas predadoras, as mais importantes reguladoras naturais de populações da broca-da-cana e de cigarrinhas. Portanto, o uso destes produtos em cana-soca compromete o equilíbrio do agroecossistema canavieiro, e tem causado o aumento das áreas-problema com a broca-da-cana, exigindo maiores cuidados.

Outro produto registrado é o nematoide entomopatogênico Steinernema puertoricense, com resultados muito bons para o controle do gorgulho e outras pragas, mas a disponibilidade desse produto no mercado ainda é bastante limitada. A eficácia do nematoide no controle de larvas do gorgulho é superior a 80%, mas no controle de adultos muitas vezes precisa da associação de inseticidas. Pode ser aplicado junto com tiametoxam.

Algumas usinas, junto com o grupo de pesquisa e extensão em controle biológico (G.bio), sediado no Centro Universitário Moura Lacerda, em Ribeirão Preto, SP, desde 2011 têm trabalhado com fungos entomopatogênicos no controle do gorgulho.

O fungo Beauveria bassiana sempre foi o mais indicado para o controle do gorgulho-da-cana. A recomendação era a aplicação na forma de pasta do fungo (água + conídios) em iscas de tolete de cana partido ao meio, 150-200 iscas por hectare, com eficácia superior a 90% de controle de adultos, sendo uma prática bastante trabalhosa.

Para o controle de adultos que irão iniciar a revoada, o uso de B. bassiana aplicado na forma líquida ou granulada (500 g conídios por hectare) é bastante eficaz, com controle superior a 80% já após 30 dias da aplicação. Entretanto, para o controle de larvas, o fungo B. bassiana tem mostrado eficácia inferior a 80% até 100 dias após a aplicação, na forma líquida ou granulada (450 g por hectare).

Por outro lado, o fungo Metarhizium anisopliae, comumente utilizado para o controle de cigarrinhas na cana-de-açúcar, tem mostrado excelentes resultados no controle de larvas de S. levis, quando aplicado com cortador de soqueiras na forma líquida (250 g por hectare) ou na forma granulada (450 g por hectare).

O gorgulho-da-cana após ser infectado por algum dos fungos fica inquieto, perde seus movimentos e para de se alimentar, chegando à morte. Quando os insetos são colonizados pelo fungo M. anisopliae, os mesmos ficam duros e uma massa pulverulenta de conídios recobre o seu corpo e ganha uma coloração que varia entre a verde-clara e escura, acinzentada ou esbranquiçada com pontos verdes. No caso de B. bassiana, os insetos ficam cobertos por uma massa esbranquiçada.

A escolha dos isolados dos fungos para o controle eficaz do gorgulho-da-cana é bastante importante, visto que cada um é mais adequado para cada região de ocorrência da praga.

O manejo de pragas da parte aérea na cultura da cana-de-açúcar é realizado predominantemente com produtos biológicos, sendo referência mundial. O mesmo não acontece com as pragas de solo, onde o controle químico é quase que exclusivo. Com o avanço das pesquisas com resultados semelhantes aos destacados nesse texto, em pouco tempo será possível manejar todas as pragas de solo de forma biológica, com a aplicação ocasional de inseticidas seletivos aos inimigos naturais constantes nesse agroecossistema.

Canavieiros, 122, 2016.



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