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Controle inteligente da broca-da-cana

A broca-da-cana-de-açúcar, Diatraea saccharalis, é problema para os canaviais todos os anos em todo o território nacional. Na década de 1990 essa praga foi considerada secundária por muitos agricultores, pois após a introdução da vespinha Cotesia flavipes no Brasil, na década de 1970, e com liberações sucessivas, a praga quase não causava danos superiores a 3% de índice de intensidade de infestação. Por esse motivo, muitos laboratórios de usinas de produção da vespinha foram fechados e as áreas com controle biológico diminuíram. Entretanto, as variedades de cana-de-açúcar do passado foram substituídas por outras mais produtivas, mais ricas em sacarose e menos fibrosas, o que propiciou uma explosão populacional da broca-da-cana, visto que as liberações de vespinhas tinham diminuído no Estado de São Paulo.

Até recentemente sabia-se que essa praga era responsável por perdas de 0,25% em açúcar, 0,20% em álcool e 0,77% na produção, a cada 1% de índice de intensidade de infestação (III) [100 x (número de entrenós broqueados / número total de entrenós)]. Entretanto, segundo o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), para as variedades atualmente plantadas no Brasil, essas perdas chegam a 0,42% em açúcar, 0,21% em álcool e 1,14% no peso da cana colhida. Portanto, é fácil se perder mais de 400 Kg de açúcar por hectare de canavial, em infestações (III) de até 10%.

Apesar da liberação de C. flavipes ser o método mais utilizado no Brasil, esse parasitoide não é capaz de reduzir rapidamente a infestação da broca-da-cana, levando alguns anos para conseguir a controle desejado (III de 2%), dependendo da infestação inicial.

Mas sabe-se que o fator chave de crescimento populacional da broca-da-cana é a fase de ovo, ou seja, se essa fase for afetada negativamente de alguma forma, a população da broca-da-cana terá dificuldades em retomar seu crescimento em curto prazo.

Por ser o ponto fraco da broca-da-cana, a fase de ovo passou a ser o alvo para se conseguir uma diminuição rápida da população da praga. Dessa forma, desde a década de 1980, outro parasitoide é estudado para controlar a broca-da-cana, agora visando aos ovos da praga. Esse parasitoide é muito pequeno e é conhecido por tricograma, sendo a espécie Trichogramma galloi a mais indicada para o controle da broca-da-cana no Brasil. No nordeste, a espécie T. distinctum é encontrada naturalmente nos canaviais parasitando ovos da praga.

Os ovos da broca-da-cana parasitados pelo tricograma ficam escurecidos em 5 a 7 dias, sendo essa sua principal característica. Desses ovos não mais “nascem” (eclodem) as lagartinhas e sim novos parasitoides, que irão se dispersar e parasitar outros ovos, mantendo assim o equilíbrio da praga nos canaviais. De cada ovo da broca-da-cana “nascem” (emergem) dois ou três novos parasitoides.

Entretanto, esse parasitoide precisa ser liberado no momento certo, ou seja, quando existirem ovos no campo. Mas como é possível saber isso? Atualmente, se usam armadilhas de feromônio com fêmeas virgens da broca-da-cana, para se determinar o momento ideal de liberação dos parasitoides. Mas como fêmeas virgens indicam esse momento? É que as fêmeas virgens liberam grande quantidade de feromônio, substância volátil que se espalha por longas distâncias pelo ar e que atraem os machos para a cópula. Quando muitos machos começam a ser capturados nessas armadilhas, é o indício de que dentro de cerca de dois a quatro dias comecem a surgir as fêmeas, e elas, dentro de pelo menos quatro dias, irão começar a colocar seus ovos.

Mas quantas armadilhas são necessárias por talhão? A Ciência chegou a uma armadilha a cada 400 m, mas o agricultor tem utilizado uma armadilha em cada quadrante do talhão, sempre acima da folhagem das plantas. Nessa estratégia, aumentando o número de machos capturado em uma das armadilhas, esse e todos os talhões vizinhos são tratados. As armadilhas são colocadas e mantidas especialmente na primavera e início de verão, mas o ideal é monitorar a ocorrência de adultos da broca o ano todo, pois constantemente há surtos de adultos.

O agricultor não desejando usar as armadilhas constantemente, deve pelo menos instalá-las no início de outubro e mantê-las até novembro, com troca de fêmeas e vistorias todas as semanas, para saber o momento exato da liberação do tricograma e controlar pelo menos as populações de primavera.

Chegado o momento do controle, são liberados, semanalmente e durante três semanas seguidas, 50.000 pupas do parasitoide, de forma protegida ou espalhados pelo campo por hectare. Os adultos podem ser liberados também, mas não é recomendado, pois em condições climáticas adversas, como chuvas e quedas de temperatura, a eficácia desse método cai muito.

A liberação manual de tricograma dentro de cápsulas deve ser feita a cada 20 m, entrando sempre na área 10 m, pois a dispersão desse parasitoide ocorre num raio de 10 metros, perfazendo um total de 24-25 pontos por hectare. Se a liberação for realizada via aérea, com o espalhamento de pupas desprotegidas, não se obedece essa regra de número de pontos por hectare.

A liberação de tricograma pode também ser realizada durante três semanas seguidas, 50.000 adultos por hectare, quando as plantas apresentarem muitas folhas (2 a 3 meses após plantio ou corte), sem a necessidade da instalação das armadilhas de feromônio. Tricograma pode ser liberado em qualquer hora do dia, apenas tomando o cuidado de não deixar os recipientes que os contêm diretamente expostos ao sol.

Quando a entrada no canavial é dificultada pelo fechamento ou acamamento da cultura, é recomendada a liberação de 2.000 adultos de tricograma a cada 50 metros ao redor do talhão. Esse mesmo procedimento pode ser tomado quando se deseja realizar liberações inoculativas de tricograma durante todo o ano ou no outono/inverno, para garantir um parasitismo dos ovos colocados nessa época, diminuindo a infestação na safra seguinte.

A associação de tricograma com C. flavipes tem garantido resultados excelentes no campo, levando à diminuição da infestação ao desejado nível de 1-2% de III em um ano, como pode ser observado no gráfico desse texto. Apesar de ser uma tática de controle naturalmente mais cara, os danos na cultura são minimizados na mesma safra e não na safra seguinte.

Para o agricultor se acostumar com essa nova opção, pequenas áreas de cana-soca podem ser tratadas apenas com tricograma ou com a associação com C. flavipes, dependendo da infestação. Assim, após esse treino, o agricultor poderá expandir essa tecnologia para áreas cada vez maiores, onde seja necessário o controle, sempre se baseando nas amostragens populacionais da praga ou nos históricos de infestações de safras anteriores.

Dessa forma, para os diferentes níveis de infestação da praga registrados na safra anterior deve-se optar por diferentes táticas de controle na safra atual, sempre complementando a decisão com os levantamentos de lagartas nos colmos. Para infestações baixas, até 5% de III, ou para a manutenção desses níveis a 2%, de uma a duas liberações de C. flavipes por ano são suficientes. Para infestações entre 5 a 10%, três liberações seguidas de tricograma garantem bons resultados. E para infestações superiores a 10% de III, a associação de tricograma com C. flavipes é a melhor opção para o agricultor.


Alexandre de Sene Pinto



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