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Manejo biológico das cigarrinhas-das-raízes em canavial

As formulações modernas do fungo aumentaram a porcentagem de acerto no seu uso, em diferentes condições climatológicas, que antes eram extremamente limitantes.

 

Por Alexandre de Sene Pinto, Occasio, 27 de abril de 2020.

 

Existem várias espécies de cigarrinhas atacando cana no Brasil. No Nordeste a espécie comum é a cigarrinha-das-folhas, Mahanarva posticata, na Zona da Mata de Minas Gerais, M. rubicunda indentata, a cigarrinha-do-cartucho, e em todo o país, a cigarrinha-das-raízes, M. fimbriolata, é bem danosa. Entretanto, M. fimbriolata foi descoberta ser um complexo de espécies, predominando M. spectabilis, M. fimbriolata e ocorrendo também M. liturata, além de outras espécies não identificadas.

Os inimigos naturais nativos da cigarrinha-das-raízes são muitos, mas destacam-se a mosca predadora de ninfas, Salpingogaster nigra, o fungo Batkoa apiculata, que atua sobre os adultos, e os parasitoides de ovos Anagrus urichi e Acmopolynema hervali. Entretanto, o fungo-verde Metarhizium anisopliae tem sido o agente mais pesquisado, mais eficiente e mais utilizado no controle das cigarrinhas da cana-de-açúcar, tendo várias empresas comercializando esse agente.

Os trabalhos pioneiros de controle de M. posticata com M. anisopliae foram realizados em 1969, e em 1975 foram instalados os primeiros laboratórios para a produção do fungo nas usinas de Pernambuco, atingindo uma área de 520 hectares, entre 1970 e 1972. Contra M. fimbriolata, somente no Estado de São Paulo, na safra 2004-2005, o fungo foi aplicado em aproximadamente 200.000 hectares.

Esse fungo, por atuar nas fases ninfal e adulta e por ser facilmente produzido em laboratório, tem sido a melhor opção biológica dentre os agentes de controle existentes. O fungo M. anisopliae era aplicado no campo na forma de conídios, seja em suspensão aquosa, junto ao substrato (arroz). Essa foi a PRIMEIRA GERAÇÃO dos fungos. Posteriormente, os conídios passaram a ser separados dos grãos de arroz e aplicados em pós, diluídos em água ou em formulações simples em óleo. Depois as formulações líquidas ficaram mais complexas, com muitos inertes dispersores, aderentes etc. Hoje, começa uma nova geração a ser comercializada, onde os conídios são envolvidos por pequenos “pellets” que os protegem e os expõe apenas quando certa quantidade de chuva é acumulada.

Em condições ideais, o conídio, caindo sobre o inseto, emitirá um tubo e penetrará o tegumento deste, passando a se desenvolver no seu interior, até causar sua morte. As condições ideais para os processos de adesão, germinação e penetração, fases que levam um pouco mais de 8 horas, são baixa radiação ultravioleta, alta umidade e temperatura amena. Por isso, as aplicações devem ser realizadas ao entardecer ou no início da noite, pois haverá a formação do orvalho, temperaturas mais amenas e não ocorrerá a incidência de raios ultravioleta, maléficos para o fungo, ou em dias nublados e chuvosos ou com o solo sombreado pela cultura e com alta umidade do ar. Para o controle biológico de ninfas de Mahanarva, a dose recomendada pela Ciência varia entre 9×1011 a 5×1012 conídios viáveis por hectare.

Outro fator que interfere no sucesso do controle é o monitoramento e a tomada de decisão de controle. O monitoramento é realizado caminhando-se numa única linha qualquer do talhão e a cada 20 m um ponto de um metro linear é avaliado quanto ao número de espumas presentes (Fig.1). Mais ou menos, uma espuma corresponde a duas ninfas. Ao terminar a linha, o monitoramento está finalizado. Esse novo esquema de monitoramento é tão eficaz quanto os tradicionais (dois pontos por hectare) e 60% mais rápido (Fig.2). Entretanto, se somente o fungo for ser aplicado, deve-se avaliar alguns desses pontos também contando-se o número de ninfas pequenas e grandes. O fungo só pode ser aplicado quando mais da metade das ninfas forem grandes, pois nesse momento todas elas já eclodiram de seus ovos no solo. O nível de controle da cigarrinha-das-raízes é de duas ninfas por metro linear.

Fig.1. Novo esquema de monitoramento de espumas e/ou ninfas da cigarrinha-das-raízes em talhão de cana-de-açúcar.

Se no final da época de ocorrência da cigarrinha ainda houver cerca de 5 ninfas por metro, deve-se realizar outra aplicação do fungo para não deixar os adultos emergirem e colocarem os ovos que permanecerão quiescentes no solo até a próxima safra.

Na atualidade, grande parte das Usinas tem misturado no mesmo tanque um inseticida na menor dose possível e uma ou meia dose do fungo-verde. Os inseticidas que são usados para o controle da cigarrinha são compatíveis com o fungo, que tem propiciado um maior período de atuação. Essa associação tem também criado um efeito adicional de controle de outras pragas, como da broca-da-cana e corós.

O fungo M. anisopliae persiste no solo em baixas umidades, mas a temperatura alta diminui o tempo de permanência de grandes inóculos no solo. Entretanto, sempre um pequeno inóculo persiste no solo de um ano para o outro. Mesmo em altas temperaturas, o fungo fica atuando por 90 a 120 dias no solo, mas com eficácia cada vez menor no controle de cigarrinhas.

Fig.2. Número médio de ninfas por metro e quantidade média de metros amostrados em diferentes técnicas de monitoramento da cigarrinha-das-raízes. Usina Denusa, Jacira, GO, 2019. Barras seguidas pela mesma letra ou sem elas não diferem entre si pelo teste de Tukey, 5%.

Diferente do que era divulgado por muitas empresas no passado, o fungo-verde é muito eficaz no controle da cigarrinha em altas infestações, mais do que tiametoxam e imidacloprido, que falham nessa situação.

A retirada da palha da linha de plantio prejudica a sobrevivência das ninfas no primeiro momento, mas logo após a retirada, as ninfas se aprofundam no solo em busca das raízes, não sendo mais afetadas. E cerca de uma semana depois, a palha retirada volta às linhas pela ação do vento, o que não justifica o investimento com essa prática.

A distribuição de calcário nas linhas de plantio com infestação de ninfas diminui a população da praga e deve ser estudada.

Na Guatemala, o fungo Paecilomyces lilacinus é utilizado no controle de ovos da cigarrinha Aeneolamia spp. (Cercopidae) no solo no período de chuvas, o que pode ser uma estratégia interessante aqui no Brasil.

 

 



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